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sexta-feira, 29 de novembro de 2019

"O progresso é impossível sem mudança; e aqueles que não conseguem mudar as suas mentes, não conseguem mudar nada." (George Bernard Shaw)

Curiosamente, ao refletir sobre a questão do impacto e do papel que as tecnologias digitais podem ter no atual paradigma educacional e na configuração dos sistemas educativos contemporâneos, deparei-me com este artigo que considero bastante interessante:


Não porque apresente algo de novo, mas porque sintetiza, de forma clara, a crise que os sistemas educativos europeus, de uma forma geral, e o português, em particular, atravessam, fruto de uma resistência à mudança num mundo em transformação.

Maria Ivone Gaspar (2005) apresenta uma tipologia de sistemas educativos, sendo que o sistema educativo português revela grandes semelhanças com o tipo latino-mediterrânico, o qual recusa as vias de estudos alternativas, valorizando o vector da homogeneidade. (p.360) Assim, e apesar das tentativas de mudança através de normativos legais, a verdade é que as escolas portuguesas ainda se assemelham, em muito, à organização taylorista, referida por Benedito (2007):

Bittery (1993), considera que o taylorismo constitui uma das marcas dominantes em vários aspectos dos modos de organização da escola, como sejam, por exemplo, a existência de uma hierarquia clara, em que directores e professores com responsabilidades directivas comparam-se aos gestores industriais, os professores aos trabalhadores e os alunos a matéria-prima a ser processada (…) Martín-Moreno (1989) apresenta onze características que assemelham a organização escolar ao tipo taylorista de organização: a uniformidade curricular, as metodologias dirigidas para o ensino colectivo, os agrupamentos rígidos de alunos, o posicionamento insular dos professores, a escassez de recursos materiais, a uniformidade na organização dos espaços educativos, a uniformidade de horários, a avaliação descontínua, a disciplina formal, a direcção unipessoal e as insuficientes relações com a comunidade. (p.13)

A publicação do Decreto-Lei nº55, do Decreto-Lei nº54, das Aprendizagens Essenciais e do Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória aponta para uma busca nítida por mudança. O problema é que esta não acontece por decreto, sendo uma realidade apenas quando, como diz nos Shaw, ocorrer uma mudança de mentalidades que permita concretizar, dentro das nossas escolas, as quatro grandes linhas de força referidas no artigo: o foco nos conteúdos a dar lugar à centralidade das competências; a transição de uma cultura de resultados para uma cultura de processos; o primado da aprendizagem sobre o ensino; e a transformação da escola, em termos de organização.

Tal como nos diz Ana Mendonça (s/d), citando Fernandes:
A ineficácia que tem marcado a história educativa é, em termos estruturais, provocada por um desajuste claro entre os objectivos proclamados nas concepções e políticas enunciadas e os resultados limitados e não raro contraditórios, obtidos na sua aplicação. Podemos considerar que a legislação, só por si, não tem capacidade para alterar as reais condições do processo ensino-aprendizagem e, a este propósito, também Benavente sustenta que “a mudança da escola exige mudanças nas estruturas, nas relações e nas práticas dos actores; mudar legislação sem novas práticas não leva a mudanças significativas (…)”. Tal significa que a escola “não se transformará por simples decretos (…) é um terreno de luta em que se joga o futuro escolar e profissional de milhares (…) de crianças do nosso país (…)”. (pp.39-40)

Como poderemos desbravar esta floresta cerrada de entraves? Conseguiremos vencer esta "luta" a que se refere Benavente? O que fazer para alcançar o êxito nesta demanda? Quem sabe o recurso às ferramentas que, afinal, estão "à mão de semear", de docentes e discentes e da restante comunidade, venha a revelar-se um aliado poderoso facilitador da tão almejada convergência... a ver vamos!

Referências bibliográficas:
Benedito, N. (2007). "Modelos de Organização dos Sistemas Educativos", in Centralização de Sistemas Educativos e Autonomia dos Actores Organizacionais. Processos colectivos de interpretação das orientações centrais (Tese de Doutoramento), pp. 50-97. Braga: Instituto de Educação e Psicologia da Universidade do Minho. 
Disponível em http://educar.files.wordpress.com/2008/08/centalsisteduc.pdf

Gaspar, M. (2005). Sistemas Educativos: princípios orientadores. Lisboa: Universidade Aberta.


Mendonça, A. (s/d). Evolução da política educativa em Portugal.
Disponível em http://www3.uma.pt/alicemendonca/politicaeducativaalicemendonca.pdf 

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A escola que temos, a escola que precisamos, a escola que queremos

Três filmes, uma questão: a escola que temos corresponde à escola que precisamos e que queremos?

A velocidade vertiginosa com que a sociedade sofre transformações e o ritmo alucinante das dinâmicas metamórficas do século XXI, dominado pelas tecnologias digitais, não permitem a Escola que temos: cristalizada no passado, num mundo que deixou de existir, numa realidade extinta. Uma Escola que continua a perpetuar um ensino mecanicista, igual para todos, alicerçado na memorização e repetição de conhecimentos, à imagem da época da revolução industrial numa lógica de “produção em série”.

É imperioso a mudança. De mentalidades, de políticas educativas, de práticas. É fundamental que a Escola, enquanto espaço privilegiado de formação e de educação, prepare os alunos para aquela que é a imprevisibilidade dos dias de hoje e do futuro, para os desafios vindouros, para as incertezas do porvir.

Assim, o professor terá forçosamente de abandonar o papel de mero “transmissor” de conhecimentos e “reinventar-se” enquanto mentor, motivador, catalisador, apostando na inovação, de forma a permitir aos seus alunos o desenvolvimento de capacidades e competências, como a comunicação, a autonomia/iniciativa, a resolução de problemas e a consciência cultural. Terá de transformar a sala de aula num espaço dinâmico, de autoaprendizagem, onde os alunos possam desenvolver a sua inteligência emocional e vir a ser construtores das suas aprendizagens. Terá de integrar as tecnologias digitais, utilizando-as enquanto instrumentos potenciadores do aprender e do saber.

Sílvia Serrano




A tecnologia e as competências do século XXI

Num post anterior, deixei em aberto uma interrogação: como promover o desenvolvimento das competências do século XXI nos alunos das escolas portuguesas?

Tal como já foi referido no post supracitado, a análise da tabela 5 do documento do WEF torna claro o longo caminho que Portugal ainda tem de percorrer no que diz respeito ao desenvolvimento das competências do século XXI pelos nossos alunos. O documento refere ainda a tecnologia como sendo um dos elementos num portfólio de soluções vitais “to close the gap” no que diz respeito a essas competências, apontando instrumentos em quatro áreas fundamentais: "personalized and adaptive content and curricula, open educational resources, communication and collaboration tools, interactive simulations and games."

Sendo eu própria fã incondicional do uso da tecnologia nas quatro áreas referidas, considero que esses instrumentos e ferramentas poderão ser aliados poderosos no processo de ensino-aprendizagem. No entanto, a sua existência, por si só, não fará a diferença. Esta reside, em última instância, no recurso a outras estratégias fundamentais, nas quais se inclui a formação de professores. De nada adiantará termos escolas bem equipadas a nível tecnológico e uma panóplia de recursos à nossa disposição se não soubermos como e quando os utilizar. Quer a formação inicial de professores, quer a formação contínua, assumem aqui um papel fulcral para que possamos contribuir para a construção/operacionalização de um sistema educativo que espelhe verdadeiramente as respostas exigidas pelo nosso século.
Sílvia Serrano

terça-feira, 12 de novembro de 2019

"As pessoas são solitárias porque constroem muros ao invés de pontes."

A educação é um direito fundamental, consagrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, na Constituição da República Portuguesa e na Lei de Bases do Sistema Educativo. É através de uma educação de qualidade que se pode assegurar o desenvolvimento social, económico e cultural de um país e garantir o acesso a outros direitos fundamentais.

Se, por um lado, temos cada vez mais crianças e jovens nas escolas portuguesas (a consulta do PORDATA facilmente nos permite chegar a essa conclusão) e o investimento per capita em Portugal surge bem classificado nas tabelas internacionais, por outro lado verifica-se que os resultados obtidos ficam aquém do expectável. Então... o que está a falhar?

De acordo como Ramos, C. (2007), o problema reside na organização, "onde problemas como a falta de estabilidade dos programas e dos corpos docentes, a escassa participação das famílias, entre outros, actuam como factores bloqueadores do sistema." Verifica-se, atualmente, aquilo a que o autor se refere como uma "situação de fratura", um "divórcio" não só entre a sociedade e o sistema educativo, mas também entre este e alguns dos seus principais atores, como é o caso dos professores.

É um facto que as acusações se sucedem... alunos e pais a professores; professores a alunos e pais; pais às direções das escolas; professores ao Ministério, num interminável "jogo da corda" a qual, prevê-se, rebentará em breve. Como que se de adversários se tratasse, na luta solitária e sem tréguas por um objetivo que, no fim de contas, é comum: mais e melhores aprendizagens para as nossas crianças e jovens.

Como nos diz Antoine de Saint-Exupéry, "As pessoas são solitárias porque constroem muros ao invés de pontes." Urge, assim, derrubar muros! Urge, assim, construir pontes! Urge reconhecer a simbiose entre os vários intervenientes no processo educativo, legitimar e dignificar o papel e a importância de cada um com vista à construção de um sistema educativo verdadeiramente de qualidade. Tal como nos diz Ramos:

Sem a sociedade e sem os professores, o sistema educativo não conseguirá superar este enorme desafio que tem pela frente. O primeiro passo passará por considerar que todos os actores no processo educacional são importantes, pois só assim se conseguirá o envolvimento de todos. E, como em qualquer processo de mudança, se não houver a participação e envolvimento de todos os intervenientes, a mudança estará condenada ao fracasso. Este será, porventura, o maior desafio que se coloca actualmente ao sistema educativo português.


sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Sistemas Educativos Europeus

Ao longo do meu processo de pesquisa individual, visando uma melhor compreensão do conceito de sistema educativo e dos sistemas educativos no quadro europeu, deparei-me com uma dissertação de mestrado que considerei deveras interessante.




Efetivamente, a Finlândia surge, regra geral, como exemplo a seguir pela qualidade do seu sistema educativo, espelhada nos resultados do PISA. Se a "receita" fosse fácil de seguir, seria simples... era só copiar! Mas não é. Os resultados de um sistema educativo não dependem apenas das escolas, nem dos intervenientes no processo de aprendizagem:

While the education system is responsible for giving students the opportunities for educational achievement, other government policies also need to be aligned to ensure student success.(1)

Tal como referido no documento New Vision for Education: Unlocking the Potential of Technology do WEFUSA, o contexto interessa! Existem fatores que condicionam os resultados, tais como problemas económicos e sociais. Será esse o problema português?

Segundo Ramos, C (2007), a resposta é não! Na verdade, de acordo com o autor, os "fatores bloqueadores do sistema" são outros bem diferentes:

O sistema educativo português vem sistematicamente bem classificado nas tabelas internacionais no que ao investimento per capita diz respeito, mas a situação muda por completo quando o critério de classificação diz respeito aos resultados. O problema não parece residir na falta de recursos financeiros, mas sim ao nível da organização, onde problemas como a falta de estabilidade dos programas e dos corpos docentes, a escassa participação das famílias, entre outros, actuam como factores bloqueadores do sistema. Neste momento parece existir uma fractura entre a sociedade e o sistema educativo, devida em grande parte aos fracassos evidentes dos sucessivos ensaios de novas soluções e ao cansaço e descrédito público daí resultante.(2)

Uma análise da tabela 5 do documento do WEFUSA torna claro o longo caminho que ainda temos de percorrer no que diz respeito ao desenvolvimento das competências do século XXI, sobretudo em comparação com a Finlândia. Como poderemos fazê-lo? Fica para uma reflexão posterior!


(1) OECD (2012), Equity and Quality in Education: Supporting Disadvantaged Students and Schools, OECD Publishing. http://dx.doi.org/10.1787/9789264130852-en
(2) Aspetos Contextuais dos Sistemas Educativos, Ramos, C. (2007)

Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória

A leitura da Lei de Bases do Sistema Educativo levou-me necessariamente ao Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória, enquanto referencial para a práxis educativa. De natureza abrangente e transversal, o documento encontra-se estruturado em Princípios, Visão, Valores e Áreas de Competências (conhecimentos, capacidades e atitudes).
Assim, toda a ação educativa deverá ser desenvolvida em consonância com o disposto no PA, o que implica uma alteração das práticas pedagógicas de uma escola que não acompanhou a evolução/transformação verificadas nos últimos anos. É, por isso, necessário repensar as dinâmicas, os tempos, os espaços, os recursos, os métodos, as estratégias... 
No entanto, a escola não muda por decreto ou porque saiu mais um qualquer normativo ou referencial, nem tão pouco de um dia para o outro. A escola não muda de "fora para dentro" mas "de dentro para fora". As escolas e todos os seus atores terão de sentir essa necessidade de mudança, interiorizá-la, apropriar-se de tudo o que lhe é inerente, para dar então o passo seguinte.
Neste âmbito, a formação de professores tem um papel fundamental, pois "nada substitui um bom professor" como diz o professor António Nóvoa, no vídeo que partilho convosco:

Sílvia Serrano

Recordar a Lei de Bases do Sistema Educativo


No início do percurso a trilhar ao longo desta UC, senti necessidade de recordar a Lei de Bases do Sistema Educativo Português, o documento onde se concretizam os meios de garantia do direito à educação no nosso país.A Lei de Bases, que “estabelece o quadro geral do sistema educativo e pode definir-se como o referencial normativo das políticas educativas que visam o desenvolvimento da educação e do sistema educativo”(1) , foi aprovada a 14 de outubro de 1986, e alterada posteriormente (em 1997, 2005 e 2009). “As duas primeiras alterações referiram-se a questões relacionadas com o acesso e financiamento do ensino superior (1997 e 2005), e a última, em 2009, com o estabelecimento do regime da escolaridade obrigatória para as crianças e jovens que se encontram em idade escolar e a consagração da universalidade da educação pré-escolar para as crianças a partir dos 5 anos de idade.” (1) Neste documento encontra-se já consagrada a democratização do ensino, a igualdade de oportunidades no acesso e sucesso às aprendizagens, enquanto garantia de equidade e de inclusão, indo ao encontro de uma educação para todos (o primeiro objetivo mundial da UNESCO).

Na nossa Lei de Bases perspetiva-se o caráter multifacetado da escola e a sua contribuição para o desenvolvimento pleno, integral e holística das crianças e jovens, visando cidadãos livres, responsáveis, autónomos e solidários, respeitadores das diferenças e dotados de espírito crítico e criativo, democrático e pluralista.

Contudo, o mundo em geral, e Portugal em particular, sofreu inúmeras transformações (sociais, tecnológicas, ambientais, políticas…) desde 1986. Assim, responderá a Lei de Bases, de forma clara, concreta e assertiva, às necessidades educativas existentes? Será que, neste momento, não se justificaria a revisão do documento à luz da(s) nova(s) realidade(s)?


Sílvia Serrano